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8 de agosto de 2016

Máquina de hits, Marília Mendonça vê fama como 'cruz' e critica feminismo


Cada vez mais popular, o sertanejo cantado por mulheres é uma bandeira feminista na música comercial? Para Marília Mendonça, maior expoente do gênero, esse papo não cola. 

A cantora não só rejeita o rótulo, que lhe é dado por causa das músicas sobre mulheres fortes e decididas, como também critica o movimento: "Eu acho que o feminismo diminui a mulher muitas vezes", diz em entrevista ao G1.

"Para haver a igualdade, não temos que ficar pedindo nada, temos que trabalhar. Não somos mais fracas. Nunca me senti discriminada pelos homens. Pelo contrário, os que me ajudaram na minha carreira são homens."

Antes dominado por eles e suas letras sobre carrões, baladas e tcherere tchê tchês, o sertanejo cresceu nas vozes femininas não por uma questão ideológica, mas porque "passou a cantar o que elas querem ouvir", na opinião de Marília.

25 shows por mês
Sua média atual de 25 shows por mês é prova da mudança. A goiana de 21 anos se lançou como cantora há exato um ano e, em pouco tempo, se tornou um fenômeno. Ela é a artista mais escutada dos últimos seis meses no YouTube do Brasil, com mais de 842 milhões de visualizações em seus vídeos no período, à frente de nomes como Justin Bieber. 

Mesmo antes de se tornar um rosto conhecido, já era uma das compositoras mais concorridas do sertanejo, com sucessos de Henrique e Juliano, Jorge e Mateus e Cristiano Araújo no currículo. O volume de produção -- já chegou a compor cinco músicas em um dia -- e a capacidade de emplacar hits lhe rendeu um apelido sugestivo no escritório que agencia seu trabalho: "maquininha".

Com uma sinceridade que diverge do discurso programado de muitos astros da música, ela falou ao G1 sobre os ônus do sucesso - que hoje vê como uma "cruz" a ser carregada -, a falta de originalidade no sertanejo e mais. 

G1 - Por que tantas mulheres estão fazendo sucesso no sertanejo hoje?
Marília Mendonça - Porque a mulher parou de cantar o que o homem quer ouvir e passou a cantar o que a mulher gosta de ouvir. Antes, as mulheres tinham que ouvir a música voltada para o homem. Mas mulher também trai, bebe, não aguenta homem folgado. Às vezes, pode ser até os mesmos assuntos, mas com uma abordagem diferente, mais feminina.


G1 - A sua música pode ser considerada feminista? Você se considera feminista?
Marília Mendonça - Não acho que é feminista, e nem me considero uma. Acho que o feminismo diminui a mulher muitas vezes. Para haver a igualdade, não temos que ficar pedindo nada, temos que trabalhar. Não somos mais fracas. Nunca me senti discriminada pelos homens. Pelo contrário, os que me ajudaram na minha carreira são homens: meu empresário, [a dupla] Henrique e Juliano... No caso da música, faltava trabalho e o entendimento sobre o que as mulheres queriam escutar.


G1 - Você já foi chamada pela imprensa de "Adele brasileira". Gosta da comparação?

Marília Mendonça - Acho legal porque ela é uma diva, mas nós temos um jeito muito diferente de ver o sofrimento. Ela vê de uma forma mais doída, dramática. Eu vou mais na linha da superação. Brinco que as pessoas comparam só porque ela é gordinha e eu também sou, ela tem uma voz forte e eu também. Mas não me incomoda.

G1 - E em quem você se inspira?
Marília Mendonça - Eu gosto das mulheres que cantam: Gal Costa, Maria Gadú, Paula Toller. Tem também a Roberta Miranda, que tem uma história muito parecida com a minha, começou como compositora e depois se tornou cantora. Mas a minha música é muito própria, me inspiro na minha verdade.

G1 - Não há muitos nomes do sertanejo entre as suas influências...
Marília Mendonça - Sim. Não busco inspiração no sertanejo, senão vai ficar tudo muito parecido. Acabaria fazendo mais do mesmo. Prefiro buscar em outras áreas.

G1 - Acha que falta originalidade ao sertanejo hoje?
Marília Mendonça - Há muita coisa igual. Mas sempre chega alguém que muda tudo. Isso é natural.

G1 - Ao que você atribui sua ascensão tão rápida?
Marília Mendonça - Primeiramente, à verdade das minhas músicas. As pessoas se identificam com o que eu canto. Não são histórias maquiadas, elas realmente acontecem com muita gente. Além disso, há a fidelidade dos fãs. Estou no meu melhor momento hoje graças aos fãs. Costumo brincar que Marília Mendonça virou uma lavagem cerebral na cabeça do povo. Quem não gosta um dia vai acabar gostando.

G1 - Você chegou a ser internada com princípio de estafa (cansaço físico e mental). No sertanejo, muitos artistas sofrem de problemas emocionais e chegam a buscar ajuda psicológica. No seu caso e nos outros, o problema é a agenda puxada?

Marília Mendonça - Quando acontece a explosão [de um sertanejo], a agenda vai aumentando, os valores ficam maiores, a gente vai querendo se encaixar em eventos maiores. E o início da carreira é a hora de ir atrás mesmo. O sucesso é uma coisa passageira. No meu caso, foi isso. Com uma média de 25 shows por mês, não sobra tempo. A gente vai levando, mas às vezes dá um estresse... Um tempo atrás fiquei dois meses e meio sem ver minha família, me deu um estresse fora do normal. 


G1 - Sente falta do anonimato?
Marília Mendonça - De vez em quando. Sonhava em cantar, mas nunca sonhei ser famosa. Amo meus fãs, eles são maravilhosos. Mas a fama é uma cruz que eu carrego. Não acho legal a invasão na vida pessoal. Sou julgada, por exemplo, porque bebo. As piores partes são a distância de casa e a falta de liberdade, principalmente de expressão. Tem coisas que gostaria de falar, mas preciso dar uma diminuída no tom. 

G1 - Acha que, se você fosse um homem, seria menos julgada por beber, por exemplo?

Marília Mendonça - Com certeza. Isso não existe para os homens. Mas um dia vão ter que entender. A minha forma de mudar as pessoas é insistir no que eu quero.

G1 - Você se sente pressionada a mudar sua personalidade ou aparência por conta dessas críticas?

Marília Mendonça - Já senti, mas hoje tento me blindar disso. Eu me preocupava não por mim, mas porque as pessoas eram desse jeito. Queria mudar a cabeça das pessoas, mas percebi que não vale a pena. 


Fonte: G1

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