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5 de janeiro de 2016

O fascínio das crianças por violência

kylo ren
O vilão Kylo Ren, de Star Wars. (Foto: Lucasfilm/Divulgação)
O sucesso do novo Star Wars prova o fascínio de espadas, explosões e batalhas em geral sobre as crianças. Percebi dois públicos bem distintos do filme: a turma com menos de 10 anos, apresentada à série nas últimas semanas, e aqueles com mais de 40, apresentados aos primeiros filmes da série quando eram pequenos.

O interesse infantil por violência não é fruto de Hollywood. Muitas histórias infantis clássicas intercalam pontapés com olhos arrancados e cabeças cortadas. Tom e Jerry, Turma da Mônica, João e Maria, Atirei o Pau no Gato, o clássico inglês Punch and Judy: a cultura infantil tradicional é cheia de sangue.

O psicólogo Steven Pinker explica esse fascínio com uma sacada interessante. Imaginar duelos e batalhas seria uma forma da mente se preparar para situações reais de violência. Diz ele no livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza:

O cérebro humano segue o adágio ‘se queres a paz, prepara-te para a guerra’. Mesmo em sociedades pacíficas, as pessoas sentem fascínio pela lógica dos blefes e ameaças, pela psicologia das alianças e traições, pela vulnerabilidade do corpo humano e como esta pode ser explorada e blindada. O prazer universal que a recreação violenta produz, sempre a despeito das censuras e denúncias moralistas, sugere que a mente anseia por informação sobre a prática da violência. Uma explicação plausível é que, na história evolutiva, a violência não era tão improvável que as pessoas pudessem se permitir não entender como ela funciona.

Mesmo quando não há histórias violentas na TV, as crianças se divertem brincando de brigar. Esse comportamento não é exclusividade humana. Muitos outros mamíferos jovens brincam de brigar. Cães, ratos e gatos compartilham a nossa capacidade de morder de mentira, dosando a força da mandíbula. Suricatas começam a brincar de brigar uma semana depois do nascimento. Em gorilas e chimpanzés, jovens machos se engajam mais em brigas de mentira que as fêmeas. A diferença essencial é que a brincadeira humana envolve ficção – armas, personagens e enredos inventados. E sabres de luz dos guerreiros Jedi.

Pais e pedagogos politicamente corretos acreditam que conseguirão evitar o fascínio por violência das crianças se escolherem videogames e desenhos mais comportados. Gastam um bom tempo comprando brinquedos pacíficos. E se decepcionam ao ver que esses brinquedos viram bombas e espadas improvisadas nas brincadeiras das crianças. Descobrem assim que não é tão fácil mudar a natureza humana.


Fonte: Veja.com

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