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23 de setembro de 2015

É ilusão governo achar que teve vitória ao manter vetos



É uma ilusão achar que houve uma vitória do governo na votação do Congresso que manteve vetos presidenciais contra a chamada “pauta-bomba”, que são projetos aprovados pelo Legislativo que aumentam o rombo nas contas públicas.

Faz parte do discurso político dos governistas falar em vitória. Sem dúvida, é positivo para o Palácio do Planalto. Mas a manutenção de vetos importantes é mais um resultado da disparada do dólar e dos temores dos efeitos negativos sobre a economia do que obra de uma grande articulação do Planalto. Até parlamentares da oposição ajudaram a manter vetos presidenciais.

Obviamente, uma derrubada dos vetos seria uma derrota do governo e um desastre para a economia. Como foram mantidos vetos importantes, há a leitura de vitória.

Será um erro político o governo acreditar nisso. Faltou apreciar o reajuste dos servidores do Poder Judiciário. Essa é uma batalha fundamental.

Ontem, quando o dólar superou a cotação de R$ 4 e fechou a R$ 4,05, houve um chamado à racionalidade no Congresso. Ocorreu um movimento dos próprios parlamentares, sobretudo do Senado, para evitar agravar ainda mais a crise econômica. Depois que senadores da oposição passaram a falar em manter vetos, houve uma mudança de clima entre deputados para não serem acusados de tocar fogo no país.

Também é uma ilusão para o governo e a oposição relacionar os votos em relação aos vetos como um termômetro para medir a força de cada lado na batalha de abertura de eventual processo de impeachment na Câmara.

Em relação aos vetos, houve uma espécie de união nacional motivada pelo desespero econômico. Na batalha do impeachment, governo, oposição e rebelados da base de apoio vão fazer outro jogo, que levará mais em conta o interesse pessoal de cada um do que o interesse do país.

Além da pressão sobre a inflação, que já está alta, a disparada do dólar desorganiza os preços relativos da economia.

O dólar subiu muito em pouco tempo. A Bolsa caiu muito em pouco tempo, jogando o preço das empresas brasileiras lá pra baixo. O governo tem dificuldade para fechar as contas públicas e já aumentou a previsão de queda do PIB (Produto Interno Bruto) deste ano para 2,44%.

Esses fatores todos embaralham a cabeça dos agentes econômicos e tornam mais difíceis fazer previsões. Sem previsibilidade, não adianta falar que a alta do dólar é boa para exportadores. Qual é o limite? Vai subir muito mais? Voltar a cair? Ninguém sabe.

Sem referências, a saída mais fácil é reindexar preços, o que já foi um desastre no passado. E aí um preço alto vai puxando o outro. Ou seja, todo o trabalho para reduzir uma inflação alta, com uma taxa de juros elevada, que estimula a recessão e derruba a arrecadação de impostos, pode ir para o lixo.

Nesse contexto complicado, seria necessária uma união nacional verdadeira da classe política em torno de uma agenda econômica mínima para evitar o pior. O Brasil precisaria, a exemplo do que foi o Plano Real para combater a inflação, de um plano fiscal de longo prazo para recuperar a confiança dos agentes econômicos e diminuir o tamanho da dívida pública em relação ao PIB num horizonte de dez anos, por exemplo.

Agir no curto prazo como manter vetos que evitem os efeitos da pauta-bomba é importante, mas é preciso visão de longo prazo. O precário entendimento entre governo e oposição em torno dos vetos mostra que nem tudo está perdido. Só estará se os políticos não tiverem responsabilidade com o país.


Fonte: Blog do Kennedy

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