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23 de janeiro de 2015

Médicos usam hipnose no tratamento da dor; conselho de medicina autoriza prática

Dores podem ser amenizadas por meio da hipnose clínica, praticada por médicos ou psicoterapeutas
“Olhe fixamente para este pêndulo. Você está ficando com sono... suas pálpebras estão ficando pesadas e você mergulhará em um sono profundo”. A partir de então, o hipnotizador controlaria a mente do hipnotizado e o faria imitar uma galinha, um cachorro ou outro animal. Essa é a ideia da maioria das pessoas para a hipnose. No entanto, a hipnose clínica moderna está longe de ser parecida com aquela circense, e hoje é uma técnica que auxilia no tratamento de fobias, traumas e também da dor. Sim, especialistas afirmam que, depois de uma sessão de hipnose, é possível reduzir ou até mesmo anular o número de remédios analgésicos.
“A pessoa com dor crônica guarda em sua memória a experiência da dor, o que contribui para que ela volte a senti-la. Com a hipnose, o paciente passa a controlar a intensidade da dor e passa a perceber o alívio. Com o tempo, a memória da dor vai se dissipando e o paciente pode deixar de senti-la”, explica a psicoterapeuta e hipnoterapeuta clínica Vânia Calazans.
Na lista de dores que podem ser tratadas por hipnose estão enxaquecas, cólicas menstruais, fibromialgia, dores provocadas por tumores cancerígenos, queimaduras e procedimentos odontológicos, além de outros desconfortos.
Mexe com o insconsciente da mente
Mas como funciona essa técnica que mexe com a mente das pessoas? O psiquiatra presidente da Sociedade Brasileira de Hipnose Clínica e Dinâmica, Leonard Verea, explica que a hipnose é uma comunicação com o inconsciente da mente, sempre dentro de um processo e situação terapêutica. “Através da hipnose, consegue-se entrar no subconsciente e dar uma série de sugestões que, se a mente aceitar, colocará em prática”, diz ele. “Não é mágica ou mandraca. É um processo terapêutico”, desmistifica.
O neurocirurgião José Oswaldo de Oliveira Junior, do A.C. Camargo, explica que a hipnose pode recrutar a produção de substâncias que o próprio corpo produz naturalmente e que tem ação analgésica. “Tem gente que faz corrida e, a partir de um momento, passa a não sentir mais dor porque teve liberação de substâncias parecidas com a morfina, como a endorfina e outros tipos A hipnose pode fazer isso também, mas sem precisar de uma corrida para ter esse efeito”, diz o médico.
A psicoterapeuta Vânia ainda acrescenta que a sugestão hipnótica pode reduzir a dor pela ativação de um sistema endógeno inibidor da dor, que desce pela medula espinhal, prevenindo a transmissão da informação da dor para o cérebro. “Há necessidade de mais pesquisas para que se chegue a um consenso sobre como esse processo ocorre, mas o fato é que de fato ocorre”, diz ela.
Mas não é para todo mundo
Nem todo mundo responde ao tratamento. Segundo Osmar Colás, professor e coordenador do grupo de estudos de hipnose da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a técnica funciona apenas em cerca de 15% da população. 
No caso da dor, algumas pessoas, pelo nível de tensão que estão vivendo no momento, não conseguem se soltar para imaginar o que o terapeuta sugere. “São pessoas que têm tendência a imaginar só coisas negativas, com dificuldade para as positivas. O propósito do tratamento é ajudar a reverter isso”, explica Verea, que também é especializado em medicina psicossomática e hipnose clínica.
E, mesmo para quem responde ao tratamento, a técnica não dura para sempre. Ou seja, a dor de cabeça voltará depois de um tempo, que sempre varia de pessoa para pessoa.
“Depende muito do quanto o paciente está envolvido no tratamento e é sempre muito importante que ele pratique a auto-hipnose. Com o tempo, ele pode deixar definitivamente de sentir a dor", explica Vânia.
Tratamento do câncer
Em quem funciona, a técnica é tão eficaz que pode permitir uma cirurgia sem anestesia, como a extração de um tumor cancerígeno. Aliás, a hipnose pode ser importante no tratamento da dor oncológica. “Reduz ansiedade, pode reduzir outros sintomas além da dor, como as náuseas e vômitos causados pela quimioterapia”, diz Oliveira Junior. O médico diz que desde 1991 o Hospital A.C. Camargo Cancer Center usa essa técnica para auxiliar pacientes com câncer.

Fonte: Ig.com

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