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16 de dezembro de 2014

UTI - Unidade de Tratamento Incompleto

Na UTI, os pacientes precisam de aparelhos, tubos, monitores, mas também de atenção e carinho

“A gentileza é a essência do ser humano. Quem não é suficientemente gentil não é suficientemente humano”.
Joseph Joubert
 
Há muito as unidades de terapia intensiva deixaram de ser instaladas em um local sem janelas, sem relógios ou calendários e, pior, sem o calor humano dos assistentes de saúde ou familiares. O que elas não conseguiram é deixar de ser conceituadas como um local de morte ou de pouca esperança e somente para pacientes muito graves ou terminais.
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Este temor tem seus fundamentos alicerçados em um passado não muito remoto de um comportamento de grande parte dos profissionais de saúde que, ligados no automático, tinham suas ações baseadas na realização de tarefas e ignoravam assim os aspectos emocionais dos pacientes, violando seus direitos e sua dignidade.
 
Esta agressão era flagrante quando o doente, sem saber o que encontraria, já que conversar com ele não era necessário, era, e às vezes ainda o é, afastado de seus familiares, obrigado a se despir, retirar óculos, aparelhos de surdez e até próteses dentárias, tendo ainda suprimida sua liberdade física.
 
A insegurança gerada pela possibilidade de um cuidado desumano ainda existe e é reforçada por um assustador, mas necessário, aparato tecnológico. Isso, associado ao despreparo dos profissionais para lidar com aspectos emocionais, faz com que muitas vezes os pacientes deixem do lado de fora sua expectativa de retorno.
 
E Para piorar, pacientes reclamavam que discutia-se suas doenças e até seus hábitos intestinais sem privacidade ou que tinham sua higiene feita com a mesma sensibilidade de quem lava um banheiro. Por incrível que pareça ainda hoje, essas atitudes somente são evitadas com treinamento constante. É preciso desenvolver a habilidade de desligar esse automatismo. Nessas unidades priorizam-se variáveis biológicas, esquecendo-se que a formação da personalidade inclui também dimensões psicológicas, religiosas e sociais.
 
Continua sendo necessário humanizar esta relação tanto ou mais que este ambiente. Porém, humanizar não é simplesmente implantar normas ou técnicas que possam ser aplicadas indistintamente. Humanizar é resgatar a preocupação com a necessidade, uma maneira de entender o sofrimento de pacientes e familiares. Em outras palavras, é colocar-se no lugar.  É, ainda, desenvolver estratégias para lidar com eventuais estressores, como a perda da autonomia, medo de sentir dor, falta de privacidade, solidão, fantasia de morte, falta de respostas. 
 
Os pacientes precisam de aparelhos, tubos, monitores, mas também necessitam de uma medicina de atenção e carinho. Ressalte-se ainda que as terapias intensivas são locais de vida, de pessoas doentes, mas recuperáveis. Pacientes terminais, sem possibilidade de tratamento devem permanecer ao lado de seus familiares.
 
Se atingirmos estes objetivos, tornaremos a aceitação desta importante ala do hospital mais tranquila (já que será a morada de muitos de nós) e a frase “Deixe suas esperanças do lado de fora, pois você está entrando no purgatório” sairá de nossas mentes e constará apenas na Divina comédia, de Dante Alighieri.
 
 
 
Por: Dante Senra
Phd pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e médico com especialidade em Cardiologia, Terapia Intensiva e Clínica Médica

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